NOTICIA DESTACADA

Carta à SIP

Sr.
Pierre Manigault
Presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa

Sr. Presidente, meu nome é Alejandro Domínguez e sou Presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) desde janeiro de 2016. Desde o primeiro dia, minha equipe e eu enfrentamos a delicada, porém crucial, missão de limpar e tornar transparente a gestão da entidade que rege o esporte mais popular e apaixonado da América do Sul. Esses foram os anos imediatamente posteriores ao FIFAgate, o escândalo internacional de corrupção que abalou o mundo dos esportes. A família do futebol sul-americano estava farta de tanta corrupção e exigia medidas concretas e eficazes para superar a crise moral em que nosso esporte se encontrava. Embarcamos então em uma verdadeira cruzada para recuperar os recursos que haviam sido roubados do futebol e garantir que aqueles que prejudicaram seu patrimônio fossem punidos. Nesse contexto, a CONMEBOL colaborou ativamente com os sistemas judiciários dos EUA, Suíça e Paraguai, e recuperou mais de USD 128 milhões perdidos devido à corrupção.

Faço esta apresentação, Senhor Presidente, porque considero extremamente importante que a SIP receba informações relevantes em primeira mão sobre um assunto sobre o qual essa instituição emitiu recentemente um comunicado. Refiro-me ao caso de lavagem de dinheiro aberto contra Miguel Zaldívar, presidente do Banco Atlas do Paraguai, e outros executivos dessa instituição. Zaldívar é marido de Natalia Zuccolillo, diretora do jornal ABC Color. Este jornal e o Banco Atlas fazem parte do Grupo Zuccolillo.

O jornal ABC Color publicou declarações suas e de outras autoridades da SIP para corroborar seu relato, caracterizando a acusação do Ministério Público contra o presidente de um banco como um “ataque à liberdade de imprensa”. Permita-me compartilhar minha opinião sobre o assunto, não apenas como presidente da CONMEBOL — a parte mais afetada pelo delito —, mas sobretudo como alguém cuja trajetória pessoal e profissional está intimamente ligada ao jornalismo e à imprensa. De fato, tive a honra de dirigir por muitos anos os jornais La Nación e Crónica, com suas edições impressa e digital, as rádios 970 AM e Montecarlo FM, e a revista Foco, todos veículos de comunicação de grande alcance e prestígio no Paraguai. Também fui vice-presidente do Comitê de Liberdade de Expressão para o Paraguai, do Diário da Educação e do Comitê contra a Impunidade da SIP. Participei de inúmeras reuniões e conferências da SIP realizadas em toda a América Latina e Península Ibérica. Tive a honra de sediar uma delas no Paraguai.

Durante vários anos, fui responsável pela elaboração do relatório anual sobre a situação da liberdade de imprensa no Paraguai para a SIP. Esses documentos registravam meticulosamente as ameaças e os ataques sofridos tanto por veículos de comunicação quanto por jornalistas, incluindo, é claro, o jornal ABC Color.

Meu compromisso com o jornalismo está no meu sangue, já que meu pai e seus irmãos fundaram e administraram diversos veículos de comunicação, uma jornada que começou há mais de 50 anos. Atualmente, minha irmã Diana é diretora de um próspero veículo de mídia digital. Meu pai vivenciou pessoalmente a perseguição ao livre exercício do jornalismo quando foi detido de forma arbitrária e injusta.

Em resumo, sem qualquer traço de arrogância, posso assegurar-lhes que me sinto qualificado para emitir uma opinião consistente sobre o “ataque à liberdade de imprensa” que, segundo o jornal ABC Color, está sendo perpetrado por meio da acusação de um crime bancário.

Será que ser dono de um jornal isenta alguém de responsabilidade criminal? Pode um jornalista (ou, seguindo a analogia deste caso, seu cônjuge) passar um sinal vermelho e exigir não ser multado alegando seu status de membro da imprensa? É razoável que o marido da diretora de um jornal seja acusado, com provas concretas, de supostamente lavar milhões de dólares obtidos por meio de corrupção e, em seguida, alegue ser perseguido por causa de seus laços familiares com um veículo de comunicação? Dessa forma, a falácia da posição do ABC Color torna-se gritante. A liberdade de imprensa e de expressão é um valor fundamental em nossa sociedade e, por essa mesma razão, é essencial não banalizá-la nem permitir que seja manipulada para obstruir ou distorcer o trabalho do sistema judiciário.

O jornal ABC Color evita abordar a questão central. Não publica provas que refutem ou enfraqueçam os argumentos da acusação. Em vez disso, procura retratar uma instituição financeira como vítima de um ataque à liberdade de imprensa. Insiste numa narrativa em que procuradores especializados em crimes econômicos, que estão fazendo seu trabalho e têm provas convincentes de lavagem de dinheiro, na verdade querem silenciar a imprensa. O problema grave não é que a narrativa seja claramente absurda, mas sim a intenção maliciosa de se protegerem sob o pretexto da liberdade de imprensa.

Os réus são executivos de bancos, não jornalistas. O crime não é um editorial ou uma investigação jornalística que incomodou os poderosos, mas uma acusação da promotoria alegando que um banco aceitou dinheiro sujo. Os fatos são simples e claros: o Banco Atlas criou fundos fiduciários multimilionários em nome de Nicolás Leoz. Ele fez isso quando esse dirigente esportivo já enfrentava um pedido de extradição dos Estados Unidos, que queriam processá-lo por corrupção. Por fim, quero assegurar-lhe que a CONMEBOL está firmemente determinada a continuar lutando pela recuperação do dinheiro roubado do futebol sul-americano. Nada nos desviará desse caminho, por maiores e mais poderosos que sejam os interesses e setores afetados.

Senhor Presidente, estou à disposição para responder a quaisquer perguntas que o senhor possa ter sobre este caso. Estou certo de que, com informações de diversas fontes, a SIP poderá formar uma opinião mais justa e equitativa sobre o assunto. As declarações que lhe foram atribuídas pelo jornal ABC Color não apenas refletem a falta de conhecimento do caso, mas também podem ser usadas para influenciar aqueles que devem julgá-lo de forma independente e autônoma.

Aproveito esta oportunidade para lhe desejar sucesso na liderança desta prestigiosa instituição, que há décadas defende a causa da verdadeira liberdade de imprensa. Aceite meus mais cordiais cumprimentos.


Alejandro Domínguez – Presidente da CONMEBOL

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